Walter Salles

O Homem de Aran – Robert Flaherty ­
Como diz Saulo Pereira de Melo, cada imagem da obra-prima de Flaherty contém o filme como um todo, e cada plano tem uma força expressiva incomum. Só me lembro de closes tão extraordinários em Eisenstein ou em Joana D’Arc, de Dreyer. Como Flaherty criou uma família hipotética para representar a vida dos pescadores de Aran, o filme cruza a fronteira entre aquilo que é considerado documentário e aquilo que pertence ao terreno da ficção.
Interessantemente, o filme abre uma discussão que outro mestre, Eduardo Coutinho, prolonga no magistral Jogo de Cena: qual a diferença entre aquilo que é representado e aquilo que não é?

Hanói, Martes 13­ – Santiago Alvarez.
O contracampo das imagens que se via sempre sobre a guerra do Vietnã. Alvarez, o maior documentarista cubano de todos os tempos, mescla o íntimo com o épico neste filme arrebatador, ao mesmo tempo em que redefine o que é a montagem moderna.

Eu, um Negro e outros filmes etnográficos de Jean Rouch

O ponto de encontro entre a pesquisa etnográfica e o cinema documental. Um cinema de
uma crueza e radicalidade pouco comuns. Jean Rouch prova que o documentário possibilita, antes de mais nada, a existência de uma memória. Registra, hoje, aquilo que não será mais amanhã. Uma obra obrigatória.

Burden of Dreams ­– Les Blank

Sobre a filmagem de Fitzcarraldo, de Werner Herzog.
O oposto dos making-ofs que se multiplicam por aí – e que são apenas instrumentos de marketing das grandes distribuidoras. Burden of Dreams é um documentário revelador sobre o embate entre o homem e o meio-ambiente. “Desromantiza” por inteiro o que é o cinema – e revela que uma filmagem pode se transformar num verdadeiro campo de batalha.

Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse –­ Fax Bahr, George Hickenlooper e Eleanor Coppola

Sobre a filmagem de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola
Tão extraordinário e revelador quanto Burden of  Dreams, esse documentário captura a história de um filme que, a exemplo do capitão Kurtz de Conrad, enlouqueceu. Um filme corajoso, montado muitos anos depois que foi filmado. Essa decantação do tempo permite um olhar distanciado, mas não menos apaixonante.

Jogo de Cena ­– Eduardo Coutinho

Godard dizia que os melhores documentários derivam para a ficção e os melhores filmes de ficção, para o documentário. Coutinho investiga um tema no qual qualquer outro realizador que não tivesse a sua inteligência teria falhado: o que é a verdade? Uma obra-prima.

Gadajace Glowy (Cabeças Falantes) – Krzysztof Kieslowski
Poloneses de 7 a 77 anos respondem a uma mesma pergunta: “quem sou e o que espero da vida?”. Um documentário de uma simplicidade apenas aparente, que esconde uma gravidade que toca no indizível, naquilo que não se exprime por palavras. Kieslowski prenuncia aqui o humanismo transbordante do seu melhor trabalho, O Decálogo.

Don’t Look Back – D.A. Pennebaker
Talvez o melhor documentário sobre o universo da música jamais feito – junto com Gimme Shelter. Seguindo o camaleão Bob Dylan em uma turnê pela Inglaterra, em 1967, Pennebaker inventa aqui uma narrativa multi-facetada, elíptica, que despreza a voz off e respeita a inteligência do espectador. O documentário ainda exerce uma forte influência sobre filmes contemporâneos, como o excelente I’m Not There, de Todd Haynes.

E ainda teria Lição de Casa, de Abbas Kiarostami, mas paro por aqui – senão a lista não termina nunca…